Ainda a Finlândia…

Sem grandes considerações a acrescentar às já realizadas aquando da minha recente viagem à Finlândia com o propósito de conhecer algumas escolas e o sistema educativo finlandês, redijo este artigo como forma de guardar um texto partilhado pela minha companheira de aventuras Lucinda Dias e partilhado no Facebook: “Finlandia: el sistema educacional en el que está prohibido seleccionar a los alumnos”.

O texto partilha um infográfico (original do sítio web www.unitedexplanations.org) que resume bastante bem as características do sistema educativo finlandês e que, por isso, deve interessar a todos quanto leram o que escrevi anteriormente:

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Sobre todo este assunto há, contudo, uma questão que, pelos vistos, só a mim me ocorre: por que razão ninguém justifica os excelentes resultados da Finlândia e da Coreia do Sul no PISA com o facto de os alunos desses países  trabalharem bastante mais, serem muito dedicados? … porque, de facto, as culturas destes países assim são? Porque temos esta tendência de procurar factores exógenos para o sucesso de alguém?


Aproveito a ocasião, uma vez que um dos temas deste blogue é o das tecnologias educativas, para também partilhar a síntese excelente que a minha colega Lucinda Dias realizou sobre o que escutamos na Finlândia neste contexto específico. Obrigada Lucinda!

Finlândia: o que está do outro lado da janela?

Está a chegar ao fim o curso sobre novos ambientes de aprendizagem que vim frequentar aqui na Finlândia. Das 4 escolas que estava previsto visitar (2 secundárias, uma primária e uma vocacional), à escola extra que visitámos a convite da amiga de um colega, até ao passeio ao Parque Nacional de Koli e ao jantar no Polar Bear, houve um sem número de atividades muito bem organizadas.

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Talvez seja muito cedo para sistematizar tanta informação, talvez precise de a “mastigar”. Há, no entanto, dois ou três pontos que gostaria de deixar anotados.
Quer no contexto de intervenções que realizei em representação da DGE, quer em meu nome próprio ao abrigo do projeto “Viagens literárias”, por exemplo, já tive oportunidade de visitar várias escolas que receberam intervenções da Parque Escolar. Grande parte delas não se ficam atrás em termos do impacto arquitectónico e de design de equipamentos, em termos de modernização e de inovação. A grande diferença, parece-me, é que ninguém questionou professores e alunos sobre o que eles achariam que seria melhor para eles. Foi uma ação em massa. Não foi pensada demoradamente, não envolveu os principais agentes, sei que houve algum diálogo com as Direções das Escolas mas penso que docentes e alunos não foram escutados. Aqui na Finlândia foram. São.

Outro ponto é a questão das tecnologias que já referi ontem. A introdução das tecnologias não é feita por ela mesma, porque é “cool”; é feita de forma pensada (uma vez mais) e acompanhada de educação para os media, ou seja, uma particular atenção à atitude do aluno, ao seu pensamento, ao uso que dás às tecnologias.

Por fim, o que me parece muito importante, mesmo muito importante. Em todas as escolas que visitei, algo saltava à vista. E essa característica era perfeitamente observável nas pessoas com quem falávamos, no dia-a-dia que observávamos: as artes, os trabalhos manuais e oficinais, o desporto e a música têm um peso muito importante na organização curricular. As aulas de economia doméstica são obrigatórias no 7.º ano e, mais importante ainda, todo o sistema parece sobretudo orientado para o mundo do trabalho, para a vida real. Ou seja, o que o sistema finlandês é, é….. realista. Adequado. Pensado. E, não tenho dúvidas, parte fundamental e muito respeitada da organização social. O que é feito, não acontece só porque há dinheiro, acontece porque há vontade, porque é importante, porque é base fundamental de uma sociedade evoluída.

E, enquanto não entendermos isto em absoluto, não iremos a lado nenhum.

Finlândia: as tecnologias e os novos ambientes de aprendizagem

[pequeno resumo originalmente publicado na minha página de Facebook no dia 28.07.2015; com algumas alterações]

Tal como imaginava, a energia para escrever um post no blogue é pouca. Se é a este ritmo que os finlandeses trabalham, eis a explicação do seu sucesso. A formação é intensa, a todos os níveis. Ainda assim, consegui fazer uma boa reportagem no Facebook. A curiosidade dos colegas portugueses pelo caso finlandês é imensa. Contudo, é de o dizer: não sei se isto do sucesso da Finlândia não é uma grande ação de marketing a nível mundial. Não o digo por me sentir defraudada; muito pelo contrário, a experiência desta semana ficará para ser marcada no meu “ser professor” e tudo o que eu vejo faz sentido, muito sentido.
Como dizia hoje o organizador do curso, Esa Raty, Diretor de uma Escola Secundária e dono do instituto Educarjla que organiza estes cursos, o caso finlandês surge por causa da posição (2.º ou 3.º atrás de países como a Coreia do Sul) nos testes PISA. Mas que vale o PISA? A Educação, o sistema educativo de um país, não é muito mais que 3 testes de literacia, matemática e ciências? Nem vou responder…..

Chamo a atenção para a excelência da atitude da nossa formadora Mari Petrelius que partilhou no meu mural esta apresentação. Estes slides e a profunda humildade desta atitude, além da qualidade do conteúdo são, decerto, melhores que algo que eu pudesse escrever.
Apenas sublinho que de um dia dedicado à introdução das tecnologias em sala de aula, na forma finlandesa de o fazer, destacaria: a reflexão que conduz à ação (faz-se porque faz sentido, porque tem impactos comprovados na aprendizagem e, mais do que isso, na preparação dos alunos para o mundo do trabalho e no desenvolvimento das competências do século XXI; não se faz porque é “moderno”); a importância do pensamento crítico e do trabalho criativo; o papel fundamental da criatividade em todo o processo; a necessidade de continuar a avaliar o que se faz, a refetir e a atitude de quem age como quem tem todo o caminho pela frente.


Transformar a Escola

O dia de hoje aqui em Joessuu, na região finlandesa da Carelia foi dedicada à visita ao Museu da Carelia na primeira parte da manhã e ao trabalho em grupo.

O trabalho em grupos (com elementos de vários países) foi realizado com plantas de arquitectura na mão. Recebemos as plantas em A3 dos 4 andares dos edifícios antigo e novo da escola onde está a decorrer o curso. Recebemos também uma pequena planta em A4 onde deveremos desenhar a sala de aula dos nossos sonhos. Por fim, tivemos direito a marcadores coloridos para irmos escrevendo os nomes dos espaços que reconhecíamos e daqueles que desenharíamos de outras formas.

Houve sobretudo duas coisas interessantes nesta atividade: em primeiro lugar, a oportunidade de olharmos uma escola com olhos de ver, sem alunos e de imaginarmos como organizaríamos os espaços e mobiliário de acordo com os nossos interesses e necessidades; como se fôssemos “donos e senhores da nossa casa”.

Depois, não deixou de ser curioso como, apesar das nossas origens e contextos tão distintos, todos nos surpreendermos com as mesmas coisas. Entre o que provocou mais surpresas, distinguiria a enorme sala de professores com cozinha, cacifos, secador de roupa e, imagine-se, uma poltrona de massagens (os professores precisam de estar felizes e satisfeitos); as mesas individuais cujo formato permitia uma arrumação modular e facilita a interação e a deambulação do professor entre os alunos, durante a aula; os equipamentos tecnológicos, com quadros interativos, projetores e visualizadores em TODAS as salas, além das modernas calhas técnicas (algumas num formato vertical portátil extraordinário); a qualidade dos laboratórios e, também, os gabinetes dos professores, por departamento, com agradáveis cubículos que incluíam secretárias, cadeiras, armários e estantes para todos os professores.

No final dos nossos registos e observações, o Diretor da Escola (organizador do curso) explicou e justificou as suas opções, muito de acordo com um inquérito previamente realizado a alunos e professores.

Houve ainda tempo para a apresentação dos colegas da Turquia.

Por hoje é tudo. Deixamos a reportagem fotográfica que fala por si:

 

[Veja mais fotos aqui]

 

A Escola (des)Arrumada

Não sou uma pessoa que vá atrás de primeiras impressões; ou que se deixe criar grandes expectativas. Confesso, contudo, que hoje ao entrar na escola finlandesa onde está a decorrer parte do curso sobre “Ambientes de Aprendizagem” que vim frequentar, me surpreendi. A escola está em obras e arrumações de verão. Nada estava no seu lugar; estantes vazias, caixotes de livros, mesas e cadeiras empilhadas, materiais de construção, uma confusão enorme.

Depois do choque inicial, pensei: “Isto só pode ser uma metáfora!” Algo assim, ao acaso, para me fazer pensar. E, de facto, …. pensemos: não queremos sempre uma Escola em construção, uma Escola que saiba re-inventar-se, uma escola que saiba aproveitar os momentos de pausa para se re-pensar e re-organizar para o Futuro?

E foi com esta certeza que entrei na sala; não tirei ainda muitas fotos com uma panorâmica da sala mas o que temos não é muito diferente do que conhecemos em Portugal: dois quadros brancos, um projetor, computador na mesa do professor, estantes, livros, …. ah! espera nesta sala as mesas são individuais e perfeitamente reconfiguráveis, as cadeiras são almofadadas e têm rodas. As mesas estão organizadas em grupos de 4. Num canto, meio escondido está um armário onde carrega uma dúzia de iPads e outra de tablets Samsung com teclado. E, por agora, é tudo. Mas é bastante.

O dia foi preenchido com a caracterização do sistema educativo finlandês e das suas  escolas depois de um excelente retrato da história da Finlândia. Tivemos dois intervalos para café e um almoço partilhado na cozinha da Escola (sim, aulas de economia doméstica fazem parte do currículo e nós estamos numa escola secundária).20150726_162456

Em seguida, demos início à apresentação dos sistemas educativos e das escolas dos diferentes países presentes: Eslováquia, República Checa, Chipre, Bulgária, Espanha, Itália, Turquia, Portugal e Lituânia. Curiosamente, demos conta de uma atitude comum, todos íamos comentando o que era semelhante e tomando nota daquilo que merecia a pena conhecer melhor para replicar. Apesar das diferenças dos diversos sistemas, foi algumas vezes referido o desejo de melhorar a criatividade dos professores e a sua competência na utilização das tecnologias de modo a promover a melhoria das aprendizagens. Como tal, alguns dos colegas mencionaram a plataforma de colaboração entre as escolas europeias, o eTtwinning.

O dia de trabalho terminou com a revisão do programa da semana que vai incluir visitas as escolas e formação na área das tecnologias com recurso a iPads e trabalho colaborativo.

Amanhã, espero continuar o relato.