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Onde se escreve sobre Educação para todos, Metas e Exames nacionais.


Partilhei ontem, no meu perfil Facebook, este vídeo que me foi recomendado pelo meu querido amigo, Professor Jarbas Novelino, alguém que acompanha há já vários anos o meu trabalho em torno da utilização de blogues em educação. Só hoje pude vê-lo. Basicamente questiona, para o caso dos Estados Unidos, a aplicação do Common Core (uma iniciativa muito semelhante às das Metas Curriculares, implementadas a nível nacional de forma faseada) e a crescente importância dos Exames a nível nacional.

Comparar o caso americano ao português é, obviamente, perigoso, dadas as diferenças entre as duas realidades, diferenças essas a imensos níveis. Não consigo pronunciar-me sobre os efeitos nos sistema educativo da existência de Metas e Exames nacionais a não ser tendo em conta a minha experiência como Professora e como Mãe. Como Professora, “assustar-me-iam” tanto as Metas como o Programa, ou seja…. nada. Tive um Programa para cumprir sujeito a Exame nacional na maior parte dos vinte anos da minha carreira. Sou Professora de uma “área estruturante” como usa dizer-se. Ensinei Português no Secundário e ensino Português no Básico. Em ambos os contextos tive o privilégio de conduzir turmas durante 3 anos até ao final do percurso e ao encontro do Exame. Tive sempre turmas bastante heterogéneas. Não dei aulas em zonas especialmente favorecidas, ou desfavorecidas socialmente, ou seja, devo poder dizer que dei/dou aulas a uma amostra do que é a população nacional. Ter um Programa para dar e um Exame nacional nunca foi impeditivo de realizar o tipo de Avaliação que está legislado, Avaliação Formativa, que procurei sempre que fosse o mais autêntica possível. Sempre me debati com as dificuldades em diferenciar como eu gostaria, dificuldades essas sublinhadas pelo aumento de alunos por turma e pelo número de turmas no horário. Desde 2000, que de forma gradual, tento introduzir tecnologias no currículo, algo em que sinto que estou ainda muito longe do ideal. Fazer avaliação formativa significa, entre muitas outras coisas, que não recolho dois elementos de avaliação por período letivo para cada aluno, em cada turma. Significa que recolho dois aos quais posso chamar Ficha de avaliação formativa e recolho outros, vários, que no caso de um aluno com deficit num determinado domínio específico posso recolher e para outro aluno não. Significa que levo os alunos a entender que cada tarefa de aprendizagem é, de certo modo, uma tarefa de avaliação, se não para mim, para ele, que é o elemento mais importante do processo e necessita de compreender o que precisa ainda de evoluir no processo de aprendizagem. Se considero que as Metas podem ajudar nesse processo? Considero. Se considero que o Exame Nacional é um bicho-papão no final do processo? Não considero. E, se eu fizer bem o meu trabalho, eles também não consideram e fá-lo-ão com seriedade. Para que é que o exame serve? Para complementar a avaliação deles, para aferir de que modo a aprendizagem foi realizada a um nível macro. Não sei se serve para me avaliar a mim. Tornaria o processo ridiculamente injusto se servisse para comparar um docente do Colégio São João de Brito a outro docente de uma Escola Pública da Damaia, quando as “matérias-primas” são tão distintas e o Professor da segunda escola, imaginemos, desenvolveu uma série de estratégias fabulosas para os seus alunos de contexto social mais desfavorecido e menos estimulados intelectualmente pelos seus pais e com menos possibilidade e acesso a cultura, a tecnologias…. A um pequeno-almoço decente…. Sei lá….

Agora…. Uma pequena história como mãe. O filho mais novo iniciou o primeiro ano em setembro. Não está na minha Escola, onde eu sei que o procurar realizar uma avaliação formativa autêntica não obrigaria à marcação no calendário do primeiro período de dois momentos de avaliação sumativa. Os elementos foram sendo recolhidos, misso, imagino que sim. A criança está a frequentar outra escola pública. Entre a escola- nova, tipo centro escolar inaugurado em setembro, escolhi esta que tem 4 turmas apenas, uma de cada ano do 1.º ciclo. Apurei que a colega era uma pessoa experiente. Não fui ver as notas do exame nacional de 4.º ano dos alunos que ela deixou em Junho. É o tipo de coisa em que as variáveis são tantas que não podemos, aí está, usar isso para avaliar a qualidade do ensino. Avaliou-se a qualidade da aprendizagem daqueles alunos e, sobretudo, a forma como eles conseguiram demonstrá-la num momento pontual de duas horas em que podiam ter dores de barriga. Bom, o meu educando…. Fui surpreendida pela marcação mais que oficial do primeiro momento de avaliação sumativa (3 testes, em cada área, em 3 dias seguidos). Em dezembro terá o 2.º momento. Fiz alguma coisa especial? Fiz, procurei explicar-lhe o conceito de avaliação de desempenho e de “nota”. No fim de semana anterior perguntei se não achava melhor fazer umas atividades extra. Não obriguei mas fez, não muito convencido. Serviu para fazer uns ajustes (curiosamente, apenas sobre o empenho colocado no pintar de uma caixa com a maior quantidade de maçãs. O empenho é um fator importante. Logo a seguir à motivação do qual depende). Não interessa muito dizer qual o resultado final da primeira avaliação da vida dele; interessa perceber que ele ficou satisfeito, sobretudo que percebeu que está num caminho bom, da mesma que seria útil saber que o caminho não é ainda o melhor, mas é o caminho dele.

Face a isto podem pensar, mas a criança só tem seis anos? O que é que ele aprendeu? As vogais, os algarismos até, a noção de dezena, algumas coisas em estudo do meio, ainda não dois meses de aprendizagem e já é avaliado? Com um instrumento de avaliação sumativa? Com tão pouca coisa? Não. Com muito. Qualquer aprendizagem, por mínima que apreça, é imenso. É valor. É incentivo. E se fui surpreendida inicialmente (na minha escola isso não teria acontecido), agora sinto-me perfeitamente em paz e gosto, sinceramente gosto, de saber que ele sabe que começou um dos caminhos mais sérios da vida dele, juntamente com outros, muito sérios também, o das emoções, o das relações sociais.

Regressando ao vídeo. Se, como se diz no vídeo, o Exame nacional deixa de lado coisas importantíssimas que a Escola ensina (ou deve ensinar)? Deixa. Coisas como a criatividade, o pensamento crítico, o trabalho em equipa, a literacia digital, e …. valores. Se esse tipo de aprendizagens está contempladas nas Metas? creio que sim, implicitamente. Está nos referenciais das áreas transversais, na Educação para a Cidadania. precisamos de avaliá-las com um Exame? Conseguíramos? Não creio. Um bom professor precisa de Metas para não as esquecer. Não creio. Os Exames são um absurdo porque esquecem essas aprendizagens? Não. Os Exames são o que são. Um esforço de aferição. Sempre me serviram para organizar a aprendizagem. Os meus alunos de 9.º começam o ano com o exame nacional do ano anterior, ao qual retiro duas questões que não cabem em 90 minutos de aula ou se referem a conteúdos específicos ainda não trabalhados. Costumam falhar redondamente? Nada disso.

Em que ficamos? Dizei-me vós.

Ai os Exames, os Exames!…. registo a minha opinião.

Não tenho nada contra os Exames. Bem pelo contrário, estou habituada a eles. Estão perfeitamente inseridos na minha prática educativa. Dou aulas vai para 20 anos e tive a sorte de, na maior parte da minha carreira, ter tido oportunidade de acompanhar alunos do 10º ao 12º ano (1996- 2002) e, depois, do 7º ao 9º. Dou aquilo a que chamam “uma disciplina estruturante”, Português. E nós, professores das tais áreas “estruturantes” de Português e Matemática, temos tido a atenção toda sobre nós. Até tivemos direito a um Plano de Ação para a Matemática e a um Plano Nacional de Leitura. Soube-se esta semana, salvo erro, que termina o primeiro porque não forneceu dados concretos (?!) e continua o segundo (ainda bem!) Não sei que dados concretos são esses. Resultados extraordinários na melhoria dos resultados? Resultados aferidos como? Com os Exames? E, pergunto, foi feita uma análise qualitativa daquilo que o Plano de Ação da Matemática permitiu mudar nas Escolas? Os professores foram questionados? Houve melhorias nas condições com as quais se trabalha? Houve mais trabalho colaborativo entre os docentes? Houve…. Bom, voltemos aos Exames.
“O professor deu o Programa? ai, tem de dar, vai ter Exame.” O que não corresponde a, por exemplo, 3 semanas de aulas debitadas sobre “Os Lusíadas” dadas à pressa “para cumprir”. O Professor dá o Programa porque ele existe, porque a noção de currículo aberto, essa então, é demasiado “à frente” para o país que temos. Eu gosto do Programa. O (meu) Programa não me escraviza embora questione o aumento do peso da tal “Gramática”; não é por terem decorado as Locuções e conjunções que os alunos saberão ler ou escrever melhor. Mas nem isso me assusta. O que questiono é a ideia de que os Exames melhoram as aprendizagens. Não, os Exames servem para aferir os processos, para ajudar o processo de ensino e deveriam servir para melhorar o trabalho colaborativo com os exames. Mas não é o que se faz em 120 minutos que avalia o que o aluno sabe. O aluno sabe em situação e deve ter mostrado o que sabe ao longo dos 3 anos que conduziram ao exame. Por isso é que vai a Exame. E se for bem preparado nada tem a temer, a não ser os tais nervos de meia hora e mesmo esses um bom professor trabalha com os seus alunos pois deve saber tranquiliza-los e transmitir-lhes confiança.
Em grande parte dos últimos 12 anos da minha vida profissional tive a sorte de trabalhar muito de parte com uma colega de Matemática. Sónia Dias. Mestre em Educação Matemática, área de Avaliação de Aprendizagens. Professora. Investigadora. Ainda não tem 40 anos. Para mim, uma das melhores professoras de Matemática que conheço. Eu e ela “tínhamos/temos Exame” 🙂 de 3 em 3 anos. Mas nem eu nem ela fazíamos testes ao longo dos 3 anos. Os nossos alunos não tinham, não têm, testes marcados no livro de ponto, muito menos 2 por período, muito menos ainda a folhinha preenchida até Junho. Os nossos alunos (bem como todos (ou quase) da minha escola, em todas as áreas disciplinares, têm tarefas de aprendizagem sobre os diversos aspetos em que devem ser avaliados (no caso da minha disciplina, compreensão oral e escrita, expressão oral e escrita e conhecimento explícito da língua – a tal gramática). Os meus alunos não sabem, por um lado “quando vão ter teste”, porque não têm testes, mas sabem que semana sim, semana não, há uma tarefa de aprendizagem que é recolhida para avaliação; podem não demorar 90 min a cumpri-la, podem ser só 15 e posso não recolher os mesmos exatos elementos  de todos os alunos mas, no final do período, não haverá grandes margens para dúvidas; antes de mim, farão eles novamente a sua auto-avaliação e terão como provas uns vinte elementos diferentes. Os critérios foram bem esclarecidos previamente, eles sabem exatamente o que devem saber, como vão ser avaliados e fazem muitas vezes hetero-avaliação. As últimas épocas de exame têm sido serenas para eles e, por norma, em algum momento do 10º eu escuto-os dizer que “o Português do 10º até é fácil”. É o melhor sinal de que a missão foi cumprida.
Eu não tenho nada contra os Exames. Mas gostaria que eles melhorassem o Ensino, eles e as Tecnologias, e a Aprendizagem por Projetos e mais uma série de coisas. E só depois, queria que um Ensino melhor, mais inovador, melhorasse, isso sim, as Aprendizagens. Ah…. E também gostava que quem fizesse os Exames tivesse um profundo conhecimento científico, metodológico e desse aulas nem que fosse só a uma turma, para conhecer a ESCOLA. Para que depois não existissem problemas, gralhas, correções e desorientações.
[imagem disponível em http://ummundoglobal.blogspot.pt/]

AF versus Aval. certificativa – Aval. de Competências

Tradução-síntese do artigo:
PERRENOUD, Philippe (2001). Évaluation formative et évaluation certificative, des postures définitivement contradictoires ou complementaires? Formation professionnelle suisse, 4. pp. 25-28.
Também disponível em http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php_2001/2001_13.html

[leitura complementada por:
Santos, L. (2002). Auto-avaliação regulada: porquê, o quê e como? In Paulo Abrantes e Filomena Araújo (Orgs.), Avaliação das Aprendizagens. Das concepções às práticas (pp. 75-84). Lisboa: Ministério da educação, Departamento do Ensino Básico. Também disponível em http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/msantos/textos/DEBfinal.pdf Consultado a 21 de Setembro 2006.
e
SANTOS, Leonor (2003) Avaliar competências: uma tarefa impossível? Educação e Matemática, 74, 16-21. Disponível em http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/msantos/Comp.pdf Consultado a 18 de Setembro 2006.]

Motivos da contradição entre AF e Avaliação certificativa (ACert):
– a AF segue uma lógica de regulação, tendo como objectivo apoiar os processos de aprendizagem, ajudar o aluno a aproximar-se dos objectivos de formação (trabalho cooperativo)
– a ACert é vista como o derradeiro julgamento, tendo lugar no final de um ciclo de estudos quando já não há tempo para aprender mais.
Esta contradição leva à dissociação dos papéis do professor-formador e do avaliador.
Além disso, coloca obstáculos no contexto escolar:
. seria necessário um número enorme de avaliadores para avaliar a população escolar
. valorização dos exames escritos e orais
. competição entre escolas

passagem de um tempo de desconfiança para uma Avaliação autêntica = Wiggins (ver aqui revisão artigo) cujos traços principais são:
-a avaliação apenas inclui tarefas contextualizadas
-a avaliação debruça-se sobre problemas complexos
-a avaliação deve contribuir para que os alunos desenvolvam as suas competências
-a avaliação exige a utilização funcional dos conhecimentos disciplinares
-na avaliação de competências não são fixados limites temporais
-a tarefa e as suas exigências são conhecidas antes da situação de avaliação
-a avaliação exige alguma forma de colaboração entre os pares
-a correcção toma em consideração as estratégias cognitivas e metacognitivas utilizadas pelos alunos
-a correcção apenas toma em consideração os erros importantes sob a óptica da construção de competências
– os critérios de correcção são determinados fazendo referência às exigências cognitivas das competências visadas
-a auto-avaliação faz parte da avaliação
-os critérios de correcção são múltiplos e dão lugar a várias informações sobre as competências avaliadas.
Esta concepção pertinente dos conhecimentos torna-se incontornável para as competências, oferecendo o melhor meio de reconciliar observação formativa e avaliação certificativa.
Uma competência não é uma simples aptidão para realizar um gesto difícil mas definido anteriormente. Trata-se de escolher, construir, adaptar, i.e., de criar o gesto apropriado. Frequentemente é uma estratégia de acção feita de operações mentais e de gestos mais visíveis.
A noção de competência está no cerne da toda a formação profissional, na escola ou no trabalho e exige duas condições:
. a aquisição de recursos cognitivos (saberes e saberes-fazer);
. a capacidade de mobilizar esses recursos
Como avaliar?
– observar em contexto real e circunstancias diversificas
– interrogar não para verificar os conhecimentos mas para compreender porque se faz de um determinado modo.
OF e ACert poderão ser, assim, duas fases do mesmo trabalho.
[problemáticas da observação, d avaliação e certificação]

Uma abordagem pragmática

Tradução-síntese do artigo: PERRENOUD, Philippe (1991). Pour une approche pragmatique de l’évaluation formative. Mesure et évaluation en education, 13 (4), pp. 49-81. (Também disponível em http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php_1991/1991_12.html)

Definição – É formativa toda a avaliação que ajude o aluno a aprender e a desenvolver-se, ou seja, que participa na regulação das aprendizagens e do desenvolvimento no sentido de um projecto educativo. Por exemplo: um teste criterial aplicado depois de uma sequência de aprendizagem e seguido de uma sequência de remediação para os alunos que não dominavam as aquisições visadas. –> necessidade de realizar um alargamento das noções de observação, intervenção e regulação.

Pode falar-se de observação formativa, sendo que “observar” é construir uma representação realista das aprendizagens, das suas condições, das suas modalidades, dos seus mecanismos e dos seus resultados. A observação é formativa sempre que permite guiar e optimizar as aprendizagens em curso sem a preocupação de classificar, certificar ou seleccionar. Pode ser instrumental ou puramenta intuitiva; aprofundada ou superficial, deliberada ou acidental, quantitativa ou qualitativa, longa ou breve, original ou bnal, rigorosa ou aproximativa, pontual ou sistemática. Uma medida digna desse nome deve ser válida, fiel, precisa, isenta de preconceitos, estável.

As dinâmicas e abordagens da observação formativa devem ser diversificadas.
Um aluno pode ser ajudado a progredir de diversas maneiras:
– dando-lhe uma explicação mais simples, mais longa ou diferente
– envolvendo-o numa outra tarefa que seja mais mobilizadora ou proporcional aos seus meios
– aligeirando a sua angústia e dando-lhe confiança
– propondo-lhe outras formas de agir ou aprender.
A intervenção segue diversos eixos complementares:
. distancia-se dos “sintomas” para atacar as causas profundas das dificuldades
. afasta-se do programa para reconstruir estruturas fundamentais ou pré-requisitos essenciais
. afasta-se da correcção de erros para interessar-se naquilo que eles significam sobre as representações do aluno
. afasta-se das aquisições cognitivas para ter em conta as dinâmicas afectivas e relacionais subjacentes
. afasta-se do individuo para considerar o seu contexto (condições de trabalho, vida dentro e fora da escola…)

Concepção mais alargada da regulação
. retroactiva ———|
. interactiva |–|–|–|–|
. próactiva |———-

Pode considerar-se a AF como uma forma de regulação entre outras (ou mesmo uma regulação por defeito) que intervem quando as outras formas já estão gastas.

Didáctica e regulação das aprendizagens – a avaliação é uma peça de um dispositivo mais vasto. Qualquer tipo de feedback tem como objectivo regular as aprendizagens. Como, então, conceber dispositivos didácticos que sejam favoráveis a uma regulação contínua das aprendizagens? A AF deveria ser pensada no quadro de uma didáctica.
Os professores mais preocupados com a eficácia possuem dois modelos:
– uma, mais sedutor (comunicação, situação, projecto…) mas que não não diz muito da avaliação
– outro, de avaliação formativa transdisciplinar inspirada pela pedagogia de mestria e de outras teorias da aprendizagem e de regulação que se desenvolve independentemente da didáctica e do currículo específico de uma disciplina.

Mas… há que ir mais longe.
. reflectir sobre a especificidade de cada tipo de aprendizagens e de conhecimentos
. perceber o que distingue a AF da pedagogia propriamente dita.
Conceber a didáctica como um dispositivo de regulação é romper com a distinção clássica entre um tempo de ensino e outro de avaliação.
O sucesso das aprendizagens joga-se mais na regulação contínua e na correcção dos erros do que num método genial; daí que se defenda que a didáctica deva favorecer uma regulação contínua das aprendizagens. Assim concebida a didáctica deveria antecipar, prever o mais possível, mas saber que o erro e a aproximação são a regra e que será necessário constantemente rectificar o processo. A regulação não é um momento específico mas um componente permanente.

A regulação pela acção e a interacção
A interacção formativa corresponde a todas as situações de comunicação nas quais o estímulo ou a resistência da realidade são tomadas em conta pelo professor e por outros parceiros. (Weiss, 1979 citado por Perrenoud). relembre-se que a própria pedagogia genética de Piaget é construtivista e interaccionista. Citando Papert (1981), nesta perspectiva de interacção que pode ser apenas com o real ou social, a informática e outras máquinas visuais favorecem uma interacção intermediária visto que elas confrontam o aluno com mecanismos programados pelo homem para lhe servir de parceiro. (Papert fala do computador como uma máquina para “pensar com”).

A acção é um factor de regulação do desenvolvimento das aprendizagens apenas por que ela obriga o individuo a acomodar, diferenciar, reorganizar ou enriquecer os esquemas de representação, de percepção e de acção. A interacção social leva o aluno a decidir, a agir, a tomar uma posição, a participar num movimento que o ultrapassa, a antecipar, a conduzir estratégias e a preservar os seus interesses.

A auto regulação de ordem metacognitiva
(Bonniol e Nunziatti) – Avaliação formadora (ver post) – formar o aluno para a regulação dos seus próprios processos de pensamento e de aprendizagem.

Uma regulação por defeito – a Avaliação formativa –> 3 campos de pesquisa (a partir das teorias gerais da regulação meta cognitiva e interactiva das aprendizagens e do desenvolvimento / construir uma teoria do ensino como construção de um dispositivo didáctico, prático de criação e gestão de situações didácticas / evidenciar certos comportamentos de AF do professor que se caracterizem por modos específicos de tomada de informação e de acção).

Regulação da aprendizagem ou da actividade?
A confusão entre aprendizagem e actividade é o que mais ameaça a ideia de regulação das aprendizagens. Grande parte das intervenções do professor são apenas das actividades (acções em que o aluno se envolve num dado momento e que contribui a desenvolver e consolidar conceitos, esquemas e saber-fazer).
Nem todas as actividades geram automaticamente aprendizagens. Uma vez que a regulação é interactiva, o professor deve conciliar 2 lógicas:
– conduzir a actividade a bom porto, mantendo o ritmo, o clima, a coerência do grupo, a continuidade da acção no sentido de actividade;
– contribuir para as aprendizagens previstas, ou seja, maximizar o conflito cognitivo e todos os processos susceptíveis de desenvolver ou consolidar os esquemas ou os saber-fazer.
Trata-se de um problema complicado porque a aprendizagem que se está a fazer não é observável.

Integrar a avaliação formativa no contrato didáctico
O contrato didáctico (ver o CD utilizado durante a UD investigada) é o acordo implícito ou explícito que se estabelece entre o mestre e os seus alunos a propósito de um saber, da sua apropriação e da sua avaliação. Mas este contrato, tal como funciona, a maior parte das vezes, não deixa lugar à avaliação formativa.
No contexto da AF é a competência que conta. Além disso, não existe AF sem diferenciação. Existe sempre uma forma de feedback nem que sejam os sinais de interesse e atenção captados por professor e alunos. Quanto mais a informação é precisa, mais individualizada se torna.

Necessidade de reinventar a AF
Ela evoluirá conforme o nível de qualificação dos professores.
A avaliação deve ser realizada consoante as necessidades:
– prognóstico
– certificação
– normativa
– formativa –> exige diferentes investimentos:
. segundo a gravidade da situação (certos alunos aprendem mais facilmente seja em que condições for, outros não)
. segundo a complexidade (cada aluno é uma “caixa negra” mas, muitas vezes, os indícios disponíveis e os modelos de interpretação permitem inferências rápidas e coerentes).

Há que considerar três aspectos da AF:
1. o facto de avaliação subtrair tempo e energia às aprendizagens mas… um teste feito criteriosamente é uma forma de exercer, rever, consolidar;
2. a avaliação consome tempo e energia;
3. qualquer avaliação, mesmo a formativa, é uma forma de controlo social e de constrangimento.

Aliar intuição e instrumentação –> ser pragmático e ecléctico. Sê-lo continuamente e com método implica uma enorme coerência e tranquilidade.

Aprendizagem assistida pela Avaliação

Tradução-síntese do artigo: Hadji, C. (1990). L’apprentissage assisté par l’évaluation (A.A.E.) mythe ou réalité?. Cahiers Pédagógiques, 281. pp. 20-23.

A avaliação é uma ferramenta formidável de formação e uma ajuda preciosa face às aprendizagens.
3 fases da AVALIAÇÃO:
Testagem: 1920-1940: – período caracterizado pela pesquisa de instrumentos mais objectivos de controlo dos resultados e dos desempenhos
Medida: 2ª Guerra Mundial – desenvolvimento de uma tecnologia da educação e tomada de consciência da importância da formulação de objectivos observáveis
Avaliação: interrogação sobre os significados das actividades educativas e sobre a coerência dos sistemas e do seu rendimento
–> necessidade de reflectir sobre o bom uso pedagógico da avaliação – etapa da avaliação formativa (1967 – …)
COMO COLOCAR AS PRÁTICAS DE AVALIAÇÃO NO QUADRO DAQUILO QUE PODEREMOS CHAMAR “APRENDIZAGEM ASSISTIDA PELA AVALIAÇÃO” (AAA).
Qualquer acto de avaliação pode construir-se em função do uso social que será feito dos seus produtos (orientação do aluno relativamente ao seu futuro, alimentar o diálogo pais/professores/alunos e facilitar a aprendizagem. Nesta última etapa, há um primado deste último uso.
A fase da AAA caracteriza-se por uma dupla convicção:
– a avaliação pedagógica está ao serviço das aprendizagens;
– para isso, ela deve organizar-se de forma pertinente.
No contexto didáctico, a avaliação pode colocar-se ao serviço da aprendizagem seja de forma directa esclarecendo a actividade daquele que aprende, seja de forma indirecta esclarecendo as escolhas daquele cuja missão é facilitar as aprendizagens. Mas como?
Allal demonstrara que qualquer processo de aprendizagem implica o funcionamento de um mecanismo de regulação envolvendo dois aspectos ou dimensões: uma dimensão de feedback: situar-se em relação ao objectivo; e uma dimensão de orientação ajustando a acção. Como articular feedback e orientação?

Forças e fraquezas da AAA
. o julgamento da avaliação é um acto de comunicação (dois tipos de informação: a posição relativamente a um objectivo e as razões dessa posição)
. o feedback não deve ser cortado à regulação (a avaliação não é um fim em si mesma). Podemos falar de regulação a longo prazo, interactiva…
Dificuldades:
– interpretar (compreender os erros que afastam o aluno do objectivo)
– saber (é necessário ter um modelo da tarefa a desempenhar, do objecto ou objectivo em vista e, também, um modelo do funcionamento daquele que aprende).
– inventar (criar um método de definição e operacionalização dos objectivos, uma técnica de aproximação ao objecto).

Reflexão da AAA:
. como despoletar um comportamento?
. como observar uma acção?
. como comunicar um julgamento?

Avaliação, Formação… Motivação

Do artigo
Nunziati, G. (1990). Pour construire un dispositif d´évaluation formatrice. Cahiers Pedagogiques, 280, pp. 47-62.

A reforma do sistema educativo far-se-á pela avaliação ou não se fará. A avaliação, assumida numa perspectiva de formação pode ser entendida através de dois conceitos distintos: Formativa e Formadora.
A Avaliação Formativa propunha, segundo Scriven em 1967:
-afinar instrumentos de medida para melhor avaliar a mestria de objectivos definidos cuidadosamente;
– recolher informações sobre o percurso do aluno e não sobre o resultado desse percurso.
A Avaliação Formadora segundo uma pesquisa de 1974-1977 de Bonniol e Nunziati:
– pretendia estudar os efeitos de uma transformação dos comportamentos do avaliador sobre os desempenhos dos alunos com mais dificuldades;
– pressupunha a apropriação pelos alunos dos critérios dos professores e a autogestão dos erros, bem como a mestria de instrumentos de antecipação e planificação;
– implicava a aprendizagem da auto-avaliação

Uma formação para / pela avaliação pressupõe:
. que a avaliação formadora é uma disciplina que exclui o autodidactismo;
. a avaliação, sob todas as suas formas, é a via principal da formação;
. a avaliação formadora é uma estratégia didáctica;
. formar é transformar.

A avaliação formadora assenta sobre diferentes modelos pedagógicos:
1. etapas da Acção (Galpérine, Savoyant, Amigues) – uma Acção complexa tem 5 fases:
. representação do objectivo e das propriedades do objecto
. antecipação da estratégia a seguir
. planificação ou escolha de uma estratégia
. execução propriamente dita
. controlo das operações.
2. análise da tarefa, lógica do perito, da disciplina, do aprendente – nem a lógica da disciplina, bem a pedagógica podem dar conta do funcionamento do aluno e do seu itinerário de aprendizagem; a palavra do professor não permite a apropriação pelo outro dos saberes e dos saberes-fazer de uma disciplina visto que estamos em registos de funcionamento diferentes; por uma questão de consequência, a remediação do erro deve ser um feito daquele que o comete e não do que o assinala.
3. elementos constitutivos de um dispositivo de avaliação formadora (avaliação formativa trem uma vocação reguladora enquanto que para a avaliação formadora a regulação é da responsabilidade do aluno):
. necessidade de transformar as aulas comuns em sequências de aprendizagem que assegurem aos alunos a mestria dos conteúdos disciplinares e dos objectivos das tarefas e dos critérios de avaliação.
. utilização de um plano de remediação progressiva do erro onde o aluno tem um papel fundamental;
. transformação dos comportamentos do corrector no desejo de corrigir o erro no seio da própria dinâmica da aprendizagem onde se torna um elemento positivo;
. recurso sistemático à auto-avaliação
. trabalho de equipa como base das opções pedagógicas.

Alguns termos essenciais: [a negrito os msis importantes para mim] Algoritmo, Auto-avaliação, Avaliação Sumativa/Formativa/Formadora, Base de orientação, Capacidades/Competências, Correcção/remediação, Critérios, descentração, Guiamento da acção do aluno, Objectivos, Objectos de avaliação, Plano de estudos, Procedimentos/Processos, Referencial, Regulação, Tarefa complexa.

Auto-avaliação
É uma avaliação realizada pelo aluno do seu trabalho seguida ou não de uma notação. Acompanha todo o desenrolar da acção e fala-se de auto-controlo.
Avaliação Sumativa/Formativa/Formadora
A AS tem por objectivo realizar balanços fiáveis no final das aprendizagens num dado período.
A AF tem como objectivo adaptar o dispositivo pedagógico à realidade das aprendizagens dos alunos. Interessa-se prioritariamente pela regulação do processo de ensino-aprendizagem.
Aos objectivos de regulação pedagógica, de gestão do erro e de reforço dos sucessos, a AFormadora acrescenta objectivos de representação correcta dos fins, da planificação da acção, da apropriação de critérios e da auto-gestão do erro.
Competências
Capacidades são categorias de acções, como “comunicar”, “documentar-se”, “argumentar”, “escolher”…São operações cognitivas globais.
Competência é o domínio (mestria) de saberes e de saberes fazer que permitem efectuar tarefas escolares numa dada disciplina e que constituem o nível de perícia de cada um.
Critérios
São as normas, frequentemente implícitas a que nos referimos para dizer que um aluno compreendeu a lição, soube fazer um trabalho ou organizá-lo, estabeleceu relações interpessoais positivas, etc. Podem ser processuais ou de sucesso.
T
arefa complexa
Todos os trabalhos que impliquem estratégias de resolução são complexos definindo-se por:
– número de conhecimentos a utilizar e a combinar;
– número de procedimentos em jogo;
– número de aprendizagens que o domínio desses conhecimentos e desses procedimentos necessitou;
– ausência ou presença de guiamento, o seu peso e a sua forma.

Objectivos de uma formação para e pela Avaliação formadora:
– transformação de pontos de vista
. definir de outra forma o estatuto do erro
. definir de outro o estatuto do discurso pedagógico
. trabalhar na transparência
. renunciar a ideias preconcebidas sobre a aprendizagem
– transformação dos conhecimentos essenciais (sobre os conhecimentos propriamente ditos, o domínio das noções de critério, objectivo, regulação,…; modelos pedagógico subjacentes; a motivação que não está ligada à ideia da sedução do enunciado ou do professor mas trata-se de um acto de antecipação sobre os sucessos que a aprendizagem proposta vai permitir ou sobre os benefícios em causa.
– transformação das práticas pedagógicas
. modificação dos comportamentos do corrector (recurso a critérios explícitos e concretos; evidenciação dos sucessos e não apenas dos erros; gestão progressiva dos erros; realização de exercícios pontuais e diferenciados de correcção; articulação entre a avaliação sumativa e a avaliação formadora).
. construção de sequências de aprendizagem sobre objectivos precisos (determinação dos objectivos a atingir que podem ser de conteúdo, de aquisição de métodos e de ferramentas didácticas, do domínio sócio-afectivo ou psico-motor; escolha de estratégias; construção de exercícios de controlo e de critérios de aferição)
. elaboração de tarefas de apropriação de critérios
. prática da auto-avaliação e da auto-correcção (ao longo de toda a aprendizagem).

Políticas sobre Avaliação Formativa

Uma das leituras mais interessantes dos últimos dias pela extraordinária síntese apresentada pelo documento é o Boletim da OCDE sobre Avaliação Formativa e o seu papel na melhoria das aprendizagens do Ensino secundário. Parece-me um documento fundamental que, apesar de datar de 2005, merecia ser traduzido e bem estudado por todos os professores em Portugal. Deixo o link e coloco-o também aqui na barra lateral.

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