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A escola e a vivência digital do aluno

Uma colega de escola, professora de Português como eu, chamou-me hoje a atenção para um post da página de Facebook “Professores de Português Interactivos” que narrava o caso de uma aluna. Vinha esse texto que transcrevo em seguida, a propósito da notícia sob o título “Microsoft lança site para ensinar a usar Minecraft como ferramenta educacional” e que resume as mais valias do sítio web (e do jogo) http://education.minecraft.net/

“Os vossos alunos jogam Minecraft?
Relato de uma experiência em prol da leitura e da escrita…

… com uma aluna que voluntariamente começou a jogar, há um ano ou pouco mais, atestando o que vem no artigo (a ler).
A “Miss Minecraft” é uma aluna real, com dificuldades acentuadas na leitura e na escrita, mal sabendo ler e escrever à entrada do segundo ciclo, fruto de dislexia (ultra)severa.
Num ano letivo, a par da pedagogia da escola que sempre lhe emprestou progressos mais lentos nas aquisições e na linguagem, jogar Minecraft trouxe evidências significativas e uma evolução notável em domínios e destrezas psicomotoras, a par de progressos no pensamento lógico, na resolução de problemas, na criatividade, para não dizer que agora ler e escrever para a “Miss Minecraft” é já um outro patamar…
Criou o seu canal no youtube onde coloca os seus vídeo-jogos Minecraft, … tem de ler tutoriais e contratos com os canais e responder por escrito aos comentários dos amigos online que partilham do mesmo gosto pelo jogo. … Tudo isto era impensável antes do Minecraft.
A par do Minecraft veio a comunicação por escrito nas diversas redes sociais e a emergência de estratégias de leitura que aprimorou com a comunicação via Skype com os amigos e a audio-transcrição via googletranslate como estratégia para responder mais rápido aos colegas, dado que a fluência [velocidade] leitora está muito comprometida, mas que demonstrou saber contornar.
E agora passada a euforia, e passados os dois anos no quinto e a transição para o segundo sexto ano, porque só consegue fazer em dois aquilo que os meninos fazem num ano, diz que aquilo é para totós smile emoticon, apesar de persistir a dislexia (ultra)severa que a acompanhará sempre, conseguiu uma maneira de aprender e inspirar.

* A “Miss Minecraft” existe, tem 13 anos e foi minha aluna este ano no 6.º (Paula).”

Página Facebook “Professores de Português Interactivos”, post registado a 4 de julho de 2015

Sobre o texto coloco várias questões que registo a seguir. O texto com as minhas questões foi deixado no meu perfil pessoal do facebook e provou uma reação que poderá ser lida na página já referida.

O uso do Minecraft parece ser algo extra-aula. Nada de novo aí. Os nossos alunos “perdem” imensas horas em casa com o uso das tecnologias. O nosso papel está em ganhar algum desse tempo ao serviço das aprendizagem, de uma forma que seja tão envolvente como as TIC. Dou em exemplo: se o meu trabalho de casa for “responde às questões 2 e 3 do livro de exercícios” não se faz, se for, vê a apresentação e constrói uma animação sobre as classes de palavras, faz-se e faz-se com gosto. e aprende-se muito!
A aluna em causa parece ser, claramente, uma guru do Minecraft mas a dislexia grave persiste; no artigo não tenho indicação de que toda a leitura e escrita nas plataformas digitais tenha contribuído sequer para uma ligeira melhoria. Se a Dislexia está diagnosticada e a aluna reprova, estará a ser avaliada de forma adequada? Como é que o domínio das TIC pode ser então usado para o aperfeiçoamento da escrita? além dos vídeos sobre os jogos, foi construída alguma narrativa digital assente na imagética do jogo? O jogo pode servir para traçar toda a história e paralelamente o texto pode ser escrito (e re-escrito e aperfeiçoado). O que este artigo nos diz é o que já se sabe há muito: que a escola reputa como mal-sucedidos alunos que são bem sucedidos no meio digital. Aquilo que precisamos de compreender – e agir – é como alterar essa situação e trazer o sucesso para a escola. Só mudando a escola. Mas, pronto, compreender que a escola precisa de ser mudada já é o 1.º passo.

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