Cheguei à sala uns cinco minutos mais cedo. Gosto de começar cedo. Eles estão mais disponíveis, menos cansados. Há sempre
alguns mais sonolentos, com hábitos menos saudáveis, smartphone, pc ou tv até mais tarde. Também gosto da aula do 2.º bloco, nessa já não há atrasos e ainda não estão cansados como no último bloco. Mas, voltemos à manhã de hoje. Arrumei a minha sala “autocarro” em grupos de 4 e 3 alunos, de maneira a acomodar os 30 alunos que aí vinham. Trinta!, numa aula de Português e pensar que, quando estive na Suécia em dezembro, assisti a uma aula de língua materna em que estariam uns 15. O trabalho que se consegue fazer é tão diferente…. como convencer alguém disto, de que há escolas sobrelotadas como a minha, de que todos os professores contratados há muitos anos se o são é porque são DE FACTO necessários, como…? E as perguntas que ainda me apetece fazer…
Mas voltemos à aula que isso é que é o importante. Sempre que entram na sala e ela está assim, mesmo não sendo a primeira vez, a predisposição é diferente. Aliás, eles já quase se habituaram a que na aula de português não existam muitas atividades rotineiras. Os protagonistas são eles e, porque o são, adoro os momentos em que peço protagonismo. E não é que todos se calam e prestam imensa atenção, à explicação ao raciocínio?… muito bom! Mas já me estou a distrair novamente…. é fácil, quando escrevo sobre eles… 🙂
Ainda não se sentaram e já querem saber ansiosamente, “o que é que vamos fazer hoje, professora?” (também gosto que alguns usem o “Professora”, foi de tantas vezes lhes dizer, “você, não, a professora!” e o”professora” vai ficando nalguns, bem mais bonito que o “stora”).
Começam a sentar-se e lá lhes explico que ali é como nos campeonatos de futebol, os melhores do ranking não podem ficar nos mesmos grupos 🙂 Enquanto divido a B, a M., a F., a C. … pelos grupos e tento equilibrá-los ouço alguém dizer “as mais inteligentes”; aproveito para lembrar que não, em 24 e anos de carreira, não tive, nem tenho, nem… terei alunos mais inteligentes ou mais burros, tenho aqueles que lêem mais, que trabalham mais (e o trabalho compensa) e outros que demoraram mais a sentir-se motivados para trabalhar, porque sim, é verdade, há naturezas mais preguiçosas 🙂 E tantos que já evoluiram desde setembro… Ainda assim, com imensas aprendizagens por saber. Mas, como dizia há dias ao L., “calma, não podemos resolver em 3 meses dificuldades que vieram contigo desde o 1.º ciclo, calma, … o mais importante é que queiras melhorar…., e que a aula te diga alguma coisa..”
Finalmente estão calmos, têm sobre a mesa o material que pedi: apenas, uma folha A4 pautada, um lápis e uma
caneta. Não há tecnologias hoje. Às vezes, digo a brincar que a melhor tecnologia que têm está entre as orelhas 🙂 Hoje digo-lhes que cada grupo terá que solucionar um problema, colaborar para encontrar a solução. E qual é o problema? Um teste. Sim, Um teste normalíssimo, leitura, escrita e alguma gramática. Mais uma vez texto poético. Hummmm, coisa estranha…. as coisas estranhas que esta professora pede são sempre, no mínimo, curiosas…. Explico as regras, os alunos tal e tal não podem puxar aquela carroça sozinhos, não podem cair na tentação de encontrar e dar as respostas sozinhos, têm que puxar pelos outros, os outros devem esforçar-se, perguntar, ler, reler, procurar, encontrar, sistematizar. Têm, a partir daquele momento, 45 minutos. São 45 minutos em que eu percorro os grupos, escuto, apoio, resolvo pequenas dúvidas, dou pequenos empurrões…. é verdade….. o texto poético não é imediato 🙂
Os 45 minutos passam; e como em qualquer jogo, há equipas em que correu melhor e com outras menos bem. Passado esse tempo, dou nova instrução: a partir de agora, silêncio absoluto: cada um, individualmente, vai responder ao teste, de forma cuidada e completa, a partir das notas que tirou a lápis.
Insisto que só lhes dou 28 minutos, sim 28, precisamos dos últimos dois para serem eles a colocarem a sala como estava antes.
E o silêncio faz-se, sem problemas, e o trabalho faz-se com afinco. Os resultados? só vou analisá-los daqui a dias mas acredito que, para muitos, a atividade prévia de discussão ajudou à compreensão do texto. Antes disso,
estou preocupada em avaliar a atividade em si, em saber o que pensaram, o que sentiram, como correu. Vou ler este documento que aqui vos deixo e fazer um instrumento de avaliação que usarão a partir de uma rubrica aliada a um formulário, com os iPads, na aula de 3.ªf.
Depois volto para contar.
PS: embora muito do que faça seja intutivo (já uso rubricas há algum tempo), não posso deixar de partilhar a ligação a alguns cenários de aprendizagem que, depois de testados no projeto ITEC, estiveram presentes no projeto CREATIVE CLASSROOMS e estão agora no projeto CO-LAB. Todos estes projetos são da Rede Europeia de Ministérios da Educação, European Schoolnet e têm sido coordenados em Portugal pela Direção-Geral da Educação (Equipa de Recursos e Tecnologias Educativas).
